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O DESPOTISMO ESCLARECIDO NO REINO DO DENDʹ – Capítulo II

Por Marcos Barreto²

CAPÍTULO II – Antonico, o Contador de Mentiras, açoita o povo e confisca o Licuri

Diante da ousadia das revoltas ocorridas com a tomada do Castello de SMED e, depois, das ruas do porto, El Rei Antonico, atendendo ao pedido de D. Palomita (que quer botar as manguinhas de fora), desceu o porrete no povo! Quero dizer, baixou um Dendêcrepto Real, a saber:

DENDÊCREPTO REAL 01/2017

El Reizinho, no uso do despotismo lhe outorgado pela “Burguesia Meia Boca da Ladeira da Barra” e pelos seguidores do Tratado dos Vassalos Bajuladores e Acéfalos – TV-BA, decide e determina:

ART. 1. É melhor ser temido que ser amado!
§1º – Todos os condes do Grupamento de Repressão aos Escravos – GRE devem botar pra lascar em cima dos escravizados acorrentados em senzalas de aulas.
§2º – Pode tocar o terror em meu nome que “eu gostio”!

ART. 2. Que seja ceifado o pagamento do escambo laboral dos escravizados rebeldes, ou não, pois para mim é tudo farinha do mesmo saco.
§1º – Caberá ao Marquês d’Bikkin Court cortar e picar o escambo laboral, sem dó nem piedade.
§2º – Pode descer a foice de olho fechado. Se pegar em alguém que se julga inocente, diga que ele assim mereceu pra deixar de ser pelego, pois a vingança real é cega.

ART. 3. Que todos os ducados e condados do Reino do Dendê me conheçam por minha malvadeza real, que é pior e mais perversa que a de Vovô e todos os meus ascendentes reais juntos. Assim diz El Reizinho!

Que este dendêcrepto real entre em vigor assim que for noticiado pela Matraca Real e que seu cumprimento seja feito à força, fórceps e, se necessário, borrachadas, pois quem manda nesta zorra sou eu.

Reino do Dendê, 28 de julho de 2017
Antonico, El Reizinho

Como se percebe, o “miserê” foi estabelecido com o decreto confiscando o Licuri e suspendendo o pagamento do escambo laboral dos dias de revolta. E, naturalmente, o bicho pegou geral…

É sabido que a moeda do Reino do Dendê está cada dia mais desvalorizada e difícil de encontrar. Ademais, imagine que, por aqui, o querosene para carruagem chegou a L$ 4,20 (quatro licuris e 20 big-big). El Reizinho só não se atreveu, ainda, a aumentar o preço da bebida maltada com cevada, porque isso criaria uma convulsão social e todas as “budegas” da província seriam demolidas pela ira dos seguidores dos deuses profanos.

Principalmente aqueles que, além de “encher o caneco”, seguem um sacerdote de bandana e se alimentam de chiclete com banana… Mas, voltemos à vaca atolada…

Sem o Licuri do escambo laboral e a galera sem um puto no bolso, o freguês que anota os pagamentos naqueles “cartõezinhos” de cartolina, e que passa uma vez por mês para cobrar a parcela da colcha de fuxico e da panela de pressão, já tá pegando ar, e já deu a ideia:

– Bom dia freguesa, vim buscar o dindin…
– Pô freguês, vai rolar não… Esse mês só recebi a galinha pulando!
– Colé freguesa, aí cê me quebra…
– Oh freguês, a culpa é daquele Reizinho, alma sebosa dusinferno!

Do outro lado da rua, até a igreja da pastora conhecida como Thia Erótika já tá mandando obreiro caloteiro pro SPC por atrasar o dízimo, e ameaçando-os de perder o valor já investido para garantir sua vaga no loteamento no céu…

Muitos relatam que estão fechando a conta de caderneta no quitandeiro e deixando de garantir a feira e a féria da quinzena. Ou seja, o comércio local virou uma quebradeira só, e olhe que o Harmonia nem fez ensaio essa semana, mas tá todo mundo agachadinho.

Naturalmente, as praças do Whatsapp e Facebook foram tomadas por discursos, denúncias e bate-bocas contra o decreto do dendê real. Todos estão se perguntando até quando o despotismo irá proteger os amigos d’El Reizinho, que recebem seu escambo salarial com o próprio peso em licuris de ouro, e, sem nenhum pudor, sacrificar a subsistência daqueles que carregam nas costas os cuidados com os filhos dos escravos nas senzalas de aula.

A parte mais escrota é perceber que muitos escravizados veem seus colegas sendo açoitados e tendo seu direito sagrado ao licuri do escambo laboral sendo confiscado arbitrariamente, um verdadeiro abuso de autoridade monarquista, e ninguém se mexe.

Mas, como miséria pouca é bobagem, El Reizinho “botou pra F…”. Meteu todo mundo no “samba de maluco” e cortou o escambo laboral a torto e “à direita”! Todo mundo se lascou! Tanto quem foi defender a própria dignidade, assim como os direitos conquistados em outras lutas e que, naturalmente, merecem todo o nosso respeito, quanto quem ficou na “espinha mole” se fingindo de morto para ser visitado, achando que não sofreria corte ou necessidade de reposição, e que caso El Reizinho respeitasse a lei que permite os escravos se organizarem e protestarem, ainda seria beneficiado.

O pior é que até para reclamar tá difícil. Pois, nas terras do dendê, os Miguxos Previsíveis e Bajuladores do Autoritarismo, também chamados de “Aristocracia MP-BA”, parecem dar pouca importância ao sofrimento do povo. Alguns, inclusive, acham que o Reizinho Antonico, por ser um homem rico, não se preocuparia em maltratar ninguém, para eles o povo é que não vale nada… O que é um lamentável exemplo da materialização do Despotismo do Dendê.

Pelo andar da carruagem, só haverá duas possibilidades para reverter esta zorra toda, devolver o licuri do povo e se livrar do sofrimento imposto aos escravizados:

1) Ou a galera vai deixar de comer reggae de Antonico e resolver partir pro que der e vier contra o despotismo do dendê;

2) Ou vai todo mundo se entupir e chorar no pé do Caboco, que nem as torcidas das equipes de “futebol de coquinho” da província, quando foram rebaixados para segunda divisão em 2015.

Os Articuladores Pragmáticos pela Libertação e contra a Burguesia – APLB já convocaram o povo das senzalas de aulas para o Quilombo dos Bancários, pois tá todo mundo virado no cabrunco.

Aguardemos os próximos capítulos para saber o resultado deste fuzuê.

CLIQUE AQUI PARA LER O PRIMEIRO CAPÍTULO DESTA SAGA

 

¹ Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência
² Marcos Marcelo Barreto – Pedagogo, Psicomotricista e Músico. Professor da SMED e diretor da APLB-Sindicato

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